quinta-feira, 5 de julho de 2012

Segundo Tempo - O idiota sou eu

Quarta-Feira, dia 05 de julho de 2012


Mais um dia idiota com pessoas medianamente idiotas. O assunto mais interessante do dia entre postagens idiotas é um jogo de futebol idiota, transmitido exclusivamente por uma emissora idiota. A idiotice poderia ser pior, mas acabei em um boteco com um monte de bêbados; realmente, pessoas pouco interessantes para um mundo de relações virtuais e falsas. Ainda sim, muito melhor que o facebook, Kant (que era um recalcado) e Shakespeare (que todo mundo tem que gostar). Mas para mim não importa nenhum pouco o jogo idiota transmitido por uma emissora reacionária (para ser razoável). Também não tenho a pretensão de escrever um poema ou qualquer coisa classificado como gênero literário. Mas tenho que registrar a diversidade; a diversidade de um boteco com um monte de bêbados como eu vendo uma partida de futebol. Ser torcedor de um time é uma experiência próxima de um partidarismo nacionalista, progressista, socialista, nazista ou fascista, ou seja, partido ( parte = sustentabilidade do sistema capitalista). Mas aqui na ilha barroca de Cascaes a heterogeneidade é um suruba antropológico. Resumo: eu bebendo uma cerveja, vendo um pescador cheio de rugas e historias na cara empinar seu martelo ácido. Um torcedor com camisa do Avaí (não identifique para quem torcia) falando sobre as finais do Boca Junior. Um Cearense, torcedor do Corinthians falando que era um jogo de favelados. Um cara soltando peidos com a camisa da escola de samba campeã dos últimos três carnavais da cidade. Uma mesa de quatro jogadores de domino (em pleno marasmo, parecendo que estavam no passado) e um monte de garrafas majestosas na parede, etc. Parei para escrever este texto no intervalo de um jogo de futebol... Mas escrever para o mundo atual é uma idiotice tão grande que prefiro apenas viver... Lá vou eu para o segundo tempo...



Texto e Imagem: Rodrigo  Vargas  Souza



"Here I'm allowed, everything all of the time
Here I'm allowed, everything all of the time

Ice age coming, ice age coming
Let me hear both sides
Let me hear both sides
Let me hear both...

Ice age coming, ice age coming
Throw it in the fire
Throw it in the fire
Throw it in the."

Trecho da Letra Idioteque: Radiohead




segunda-feira, 2 de julho de 2012

Lápis 6B




Segunda feira
Faz frio
Ele sai com seus sapatos pesados
A mesma calça rota
E um casaco de veludo dos anos 80
No bolso
No lugar dos documentos, celular e cartão de crédito
Um walkman com uma fita de Stravinsky   
Um lápis 6B
E um pouco de dinheiro
Pouco, mais o suficiente para preencher a solidão do dia
Senta na mesma mesa revestida de papel Kraft
Pede uma taça de vinho bordô para o mesmo garçom cansado
No qual nunca trocou uma palavra
Toma o vinho com notas acentuadas de vinagre
Calado
Começa a traçar linhas tortas na mesa
Definindo sua arquitetura vazia
Preenchida apenas de calungas fáticas
Após algumas horas
Deixa a mesa nua
O copo com a solidão
E entra em sua madrugada
Habitando os espaços defeituosos da rua
As pessoas cegas vêem apenas ele sozinho
Pulando no meio do nevoeiro
Zombam de sua loucura
Mas ele com indiferença dança
Dança com suas calungas 


Poema: Rodrigo Vargas Souza
Imagem: Rael Brian

domingo, 17 de junho de 2012

A casa do poeta sem sombra



Na casa do poeta sem sombra
As roupas do varal estão mofadas
O papel higiênico acabou
As folhas dos jornais agora têm alguma serventia   
Notícias medíocres
Anúncios de novos investimentos imobiliários
Fotos de uma atriz cult
De certa forma tomaram no cu
O armário bate sua porta desbeiçada
A poeira flutua sobre a superfície dos móveis
O leite coalhado emite um cheiro azedo sobre o fogão sujo
A parede do banheiro encardida
As formigas endoidecidas dentro de um pote de geléia de figo
A úlcera curada na umidade do ar
Latas de sardinhas amontoadas no lixo 
O sol fugindo da janela
O poeta pálido lentamente posiciona a sua cadeira de praia  
No local mais séptico da casa 
Senta com o cabelo lambido para o lado
E com todas as espinhas da cara espremidas   
Começa a recitar poemas para a paisagem
Pausados apenas por goles de conhaque de gengibre     
Sua fisionomia tem um longe de crepúsculo 
Logo as estrelas chegarão
E a garrafa estará vazia 

Poeta e Fotografia: Rodrigo Vargas Souza 

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Joaninha Verde da Avenida Beira Mar


Apertando sem querer o botão automático
ela, de repente,
embarca no meu lado
aproveitando a artéria entupida do trânsito.

Ela desfila
explorando a transparência do vidro
e face negra enrugada do interior do automóvel,
tudo como se fosse a superfície lunar.

No vento artificial do ar condicionado
ela flutua com suas asas
sem gravidade,
uma astronauta verde com bolinhas amarelas
viajando pela galáxia plástica e estofada.

Enquanto eu estou parado,
ela explora todas as possibilidades.
Enquanto eu em minha inércia
mastigo o cotidiano pesado,
ela viaja pelo tempo,
poucos metros
são mundos distantes.

Algumas horas passadas
consigo completar mais um dia cansativo;
chego a minha casa,
minhas narinas
lentamente vão se libertando do cheiro de surdina.

Abro a porta,
exausto,
a Joaninha Verde da Avenida Beira Mar
mergulha novamente no ar quente e leve,
suas anteninhas, por um momento,
fitam-me,
parecem zombar da minha existência “humana”.

Voa sem formalidade
sumindo entre as folhas verdes de um pequeno brejal,
ela também está de volta em casa.

Poema:Rodrigo V. Souza
Imagem: Internet 

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O copo era de vinho



A lua nua invade a noite
roçando no véu das nuvens passantes.
Cadelas no cio
regendo a sinfonia da madrugada,
cachorros uivantes,
vira-latas em uma orgia de pau, pelos, vagina e luz.

Um caco de vidro aranha o pálido piso bege
respingado de orgasmo seco.
Um inseto invertebrado mergulha dentro do copo,
quebrando o silêncio da superfície inerte;
suas asas,
seu corpo minúsculo
banhado de cor cereja.
Mas quem embriaga hoje
não é a fermentação prolongada,
não é a essência da alfazema concentrada,
são as estrelas que brilham tímidas,
o tímido cheiro de teu cabelo
que insiste no travesseiro.

Um inseto invertebrado mergulhou dentro do copo
quebrando o silêncio da superfície inerte,
sorrindo,
ele respirou o último gosto de vida;

o copo era de vinho.

Poema: Rodrigo Vargas Souza
Imagem: Internet

O rio com sapatos

Arte: Andre Soares

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O rio com sapatos (Rio dos Sinos)



O rio nasce azul                                         (percurso superior)
cristalino
nas montanhas de Caraá.
O rio nasce no litoral,
mas sua água não tem sal;
sua água é limpa
encima do morro
a água nasce
viva.  

A água do rio desce,
leve,
leva o tempo encarnado em sua pele cristalina,
lava,
faz da matéria bruta,
macia,
faz da forma caótica,
polida e círcular;
seixo em forma de seios
de sereias perdidas e embriagadas,
do colono bêbedo,
de cachaça de Santo Antonio.

O rio avança terra adentro,
desce as montanhas
levando consigo o brilho da escama de peixe
Lambari,
Cará,
o peixe é vivo.
Viola,
Dourado, 
corta a água e mata a fome
do colono,
do bugre
sem nome,
sem língua,
sem terra,
que viveu em harmonia com o rio
passado.  

Como o canto do Martim-pescador 
o rio flui até as suaves planícies,
rasga a terra e se lanha nos Sarandis,
transforma-se em água parada
no ventre nu das bromélias,
recebe o sêmen dos mosquitos
em uma orgia de plantas e insetos invertebrados.     


Invertebrado é o rio                                    (percurso médio)
que contorna as cidades do vale;
são arranha-céus que tocam o céu azul
e projetam suas sombras de vidro e concreto
no rio opaco.
Na paisagem de fábricas,
dos colonos que não são colonos,
mas burgueses fabricantes de sapatos;
cospem-se resíduos de curtume no rio,
agora os peixes não têm escama,
os peixes são feitos de couro, chorume e tumor.
O rio é denso
como a memória do pescador,
como a cachaça do pescador,
como o barco podre e desbotado do pescador,
como o barco inerte na terra seca. 
O rio que outrora nadavam os peixes,
bóiam sapatos.

No rio são despachados corpos assassinados,
corpos de gente de carne e osso,
apodrecidos
na mucosa do rio,
na lama negra do rio
que é rompida somente pela draga;
a draga que é o coveiro do rio,
a draga que mistura o lixo a areia,
a draga que transforma o rio em terra ,  
a draga que violenta o rio;
o rio violentado,
o rio cadáver, 
o rio que fede,
o rio que tem sua água calejada, 
avança lento, agora com os seus sapatos.


O rio que corria                                               (percurso inferior)
agora caminha pesado
carregando o lixo,
o esgoto urbano,
o coco humano. 
Tudo que é oco bóia no rio,
fogão,
geladeira,
hardwares,
hardcore.
E nesta altura não há mata ciliar,
não há pássaros,
não há peixe,
há apenas os cadáveres jogados na calada da noite,
há apenas os casebres amontoados
com suas palafitas corroídas
pelo rio ácido;
há fome,
há lixo,
há fedor,
há a pobreza do pescador ribeirinho
que insiste em sobreviver às margens;
as margens de um rio sem vida.
A figura do pescador
agora faminto
morre com rio.

Nas margens deste rio não habitam os cães
sem plumas de Cabral,
os vira-latas daqui
descendem do cusco de Blau;
Mas que importância isto tem?
São cachorros com pelo ralo,
corroído de sarna,
secos como seus donos pescadores.
são rios diferentes,
mas assemelham-se na sujeira e na miséria.


Nas marmitas lambidas
pelas moscas,
nos casebres de telha de amianto
e pregos enferrujados em tábuas podres,
os pecadores existem,
labutam dia a dia com a água densa e oleosa, 
com a esperança de vencer o lixo,
a fome,
a miséria.
O rio caminha com seus sapatos,
sua pele líquida, lanhada e anêmica
abrigam poucos peixes com chips no estômago.
Sua pele já não tão líquida
abrigam poucos peixes com lixo no estômago,
peixes com tumores e pescadores com fome
protestam e não se esquecem de Outubro de 2006:
Mais de 800 pescadores sem o seu sustento,
100 toneladas de peixes assassinados,
boiando, inertes.
O rio com sua pele sólida crivada de cadáveres
abrigou como em Hiroshima milhares de mortos;


este é  um sistema de padrões.  

O rio caminha rumo ao delta,
mistura-se com outros rios,
todos fedem sujos,
podres,
com águas turvas,
tristes,  
trazem poucos peixes mutantes,
peixes eletrônicos,
doentes de esgoto,
doentes de química,
doentes de lixo;
o rio caminha
e como ser vivo
agoniza.  
O rio com os outros rios
caminha em direção ao seu fim,
caminha e com os outros rios vira lagoa.
O rio com os outros rios
caminha em direção ao seu fim;
sonha em matar sua peste no sal do mar,
mas o mar está além do horizonte.
O rio caminha,
caminha com seus sapatos,
caminha  sufocado.
Poema: Rodrigo Vargas Souza
Imagem: da internet

domingo, 15 de janeiro de 2012

Manifestos, sexo e poesia concreta em um dia de chuva


Enquanto você se coça
As tuas mãos entre as tuas pernas
Acaricia minha imaginação
São formas não geométricas
Natureza
Yoga
Posição do cachorro espreguiçando
Calcinha
Nádegas
Bocas
Salivas
Gemidos
Ondas sonoras
Mangue beat
A batida do vai e vem
É beat também
Um livro mudo no canto da cama
A cama sólida e pura
Um cão sem plumas
Você nua
Um 69 em 2012
Poesia e manifestos concretistas
Orgasmos múltiplos
Múltiplos pingos de chuva
A noite caindo suave
Caem suaves roupas
Nudez latente
Entre minhas mãos
Brutos pensamentos
Poesia sutra
Conteúdo
Tesão
Sexo
Cu
Pau
Buceta
Chuva
Chupadas
Peitos
Pelos
Pubianos
Orgasmos
Sono
Sonhos
Sonoros
Suruba
Tudo é arte abstrata
Efervescência
Ebulição
Nuvens abertas como pernas
Sexo e sol
Colorindo a lagoa
Boi de mamão
Tuas mãos
Minhas mãos
Mãos
Nossas mãos
Genitália
Nossos corpos
Grudados
Tensão
Material
Imaterial
Tudo acaba em espermas
Saltitantes entre os lençóis
Mas o tempo violento
Seca
Sobra
Manchas brutas
Em um pano de algodão
Que reveste um colchão de espuma
São manchas brutas
Macias
Poesia concreta
Poema: RVS
Imagem: Picasso

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

9º CONCURSO LITERÁRIO SOPMAC DE POESIA 2011

9º CONCURSO LITERÁRIO SOPMAC DE POESIA 2011
Idealização e Coordenação: Eliseu Penkynha Brazil
DIVULGA RESULTADO FINAL/Dezembro 2011

Participaram deste Certame, 84 poetas, de todo o Brasil, com um total de 206 poesias inscritas. Neste concurso premiamos do 1º ao 10º lugares e mais três menções honrosas. 
A comissão julgadora foi formada por:
Armando Oliveira Lima (Presidente do Instituto Darcy Ribeiro, coordenador do DEPOESIA);
Eliseu F. de Campos (escritor);
João Batista Alvarenga (Professor de Língua Portuguesa e revisor de textos);
Maria Rita Terra Alvarenga (Professora de Artes e artesã);
Sueli Aduan (Oficineira de Literatura pela Secretaria de Estado da Cultura e professora no SENAC).
OS VENCEDORES FORAM:
1º lugar/poesia: SABER DAS CRUZES
Autor: Roque Aloisio Weschenfelder – Santa Rosa-RS
pseudônimo: Tumbante

2º lugar/poesia: MÁSCARAS
Autor: Luiz Gondin de Araujo Lins – Rio de Janeiro – RJ
pseudônimo: Viajante

3º lugar/poesia: ESMERALDAS ENTRE OS LIVROS
Autor: Glauco Paludo Gazoni – Chapecó – SC
Pseudônimo: Lupo Grigiastro

4º lugar/poesia: A TAÇA 
Autor: Vera Maria Barbosa – São Paulo – SP
pseudônimo: Primavera Azul

5º lugar/poesia: OS REIS 
Autor: Renata Paccola – São Paulo – SP
pseudônimo: Jean-Jacques Rousseau

6º lugar/poesia: A FLOR
Autor: Patrícia Diniz Santos – Natal - RN
pseudônimo: Lua Azul

7º lugar/poesia: PELE, CABELO, FARELO E PENTELHO
Autor: Rodrigo Vargas Souza – Florianópolis – SC
Pseudônimo: Zé das Letras

8º lugar/poesia: Uma Longa Conversa Entre o Boneco e o Ventriloquo
Autor: Paulo Roberto da Costa Feitosa – São Paulo - SP
pseudônimo: Pablo Abyss

9º lugar/poesia: ESTANDARTE
Autor: Perpétua Amorim – Franca - SP
pseudônimo: M. Clarice

10º lugar/poesia: DESPERTAR NA CIDADE
Autor: Francisco Ferreira – Betim – MGpseudônimo: Orpheu da Conceição
MENÇÕES HONROSAS

Poesia: DIA TRISTE
Autor: Alan Posenatto – Niterói - RJ
Pseudônimo: Esopo
 
Poesia: OS GALOS DA MINHA RUA
Autor: Reginaldo Costa de Albuquerque – Campo Grande - MS
Pseudônimo: Íris

Poesia: AGÓGICA
Autor: Geraldo Trombin - Americana – SP
Pseudônimo: Areg
ESCRITORES SOROCABANOS HOMENAGEADOS

Lourdinha Blagitz: livro = “Êta Trem Bão, Sô!”, Crearte Editora;
Sueli Aduan: livro = “Avidamente Olho Para o Mundo”
                                 Editora Multifoco;
João Batista Alvarenga: livro: “Plexo Solar”, Crearte Editora;
                      Livro: “Homenagens Poéticas”, Crearte Editora      
Eliseu F. de Campos: livro: “Cronicoesia”, Crearte editora.
Obs.: Os escritores acima receberam Certificado de Menção Honrosa pela homenagem, e, seus livros foram entregues como prêmios aos vencedores do 9º Concurso Literário Sopmac de Poesia 2011.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Gripe Primaveril

Sim!
Prefiro beber a ler
Os livros da estante estão mudos
Corroídos de traça
As folhas coladas
Manchadas de palavras dissolvidas
Os livros da estante em minha casa
Servem para esconder o mofo da parede
Mofo
Da mesma umidade que me trouxe a gripe
Fazendo-me fechar a janela
Esconder-me do vento
Não ver o verde sensual da lagoa
Resistir à dureza do concreto

Sim!
Os livros das estantes estão retos
Como a geometria cega da especulação imobiliária
Eu em uma tarde primaveril embebedado de gripe
Preso vendo os cantos dos pássaros livres
Observo
O vapor do chá de limão e gengibre
Saindo de uma xícara quieta
Dançando com vento que escorre pela fresta da janela
Eu trago o ruído ao silencio da tarde febril
Tusso, pigarreando o telhado
Catarro misturando-se ao musgo seco
O sol lá de fora é claro
Faz de minha alma translúcida
Vidro
De onda invisível que passa por tudo
Revelasse em luz e sombra na superfície enrijecida do Papel
Os livros da estante hoje não estão sós
Hoje
Leio poesia

Poesia: Rodrigo Vargas Souza/Imagem: Franklin Cascaes

Ainda serão culpados os pobres


Bebo um copo de água
"Límpida"
"Pura"
Diferente do que jorra do cano branco de PVC
Que cospe merda
Óleo de cozinha
Cabelo e xampu
Detergente
Feto de aborto

A água da lagoa é suja
E não foram os pobres quem a sujaram
Foram os burgueses
De idéias podres
No circulo da tarrafa do seu zininho
Apaga-se a beleza que um dia cantou o poeta
Agora vem pouco siri
A lua reflete opaca no óleo das lanchas de cor também branca
Falta peixe no rancho
Diz o pescador
Foram roubados nos barcos lá de fora
Os donos dos barcos e da sujeira
Sujeira que vem junto na tarrafa do seu zeninho
Junto com um pouco de camarão

Poesia: Rodrigo Vargas Souza / Imagem: Franklin Cascaes

domingo, 16 de outubro de 2011

Como era lá fora


Como segurando o crepúsculo
O fogo de chão
Esquenta a chaleira negra
E o amargo do chimarrão reveza a goela com a cachaça
Pelego de ovelha sobre a tábua de araucária polida
A porteira aberta
O carroção e a junta de boi
Andando lentamente
Como se retrocedesse o tempo
Passado e presente misturado
Cavalgando os buracos circulares com cacos de cerâmica
Que hoje abrigam as taperas e a alma de Teiniaguá
O carro avançando o tempo para o futuro
A mesma poeira
A estrada de chão
O açude
O campo pampiano
Os lambaris em pulos
Manchando a paisagem de cor prata
A goleira de pau roliço e a trepadeira magenta
Enquadrando o horizonte que lanha
O verde do azul
As caturritas rompendo o silêncio
As margens do arroio ribeiro
Os butiazeiros carregados de frutos
Coquinhos no chão
Corroídos pelas formigas cortadeiras
Nos capões,
Nos entreveros dos maricás
O eco do pajador
No banhado o esteio com água pela cintura
Abriga os pés da coruja baguala
Como sangue de mesma geometria
A arquitetura do João barreiro
Sobre os postes de energia latente
Cachopa de marimbondo
Mel de abelha
Eucalipto
Tudo é ocupado por bicho guasca
O sol queimando o torrão
O chão do graxaim
Revirado pelo arado
Sanga vertendo
Sanguessuga
Monocultura
Aeromotores e veneno
Riscam a beleza miúda
Da terra do índio minuano ...

Poema: Rodrigo Vargas Souza
Desenho: Glauco Rodrigues

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

A noite dos Stones


A noite sempre deixa seqüelas (...)
 
A lua queimou o piso pálido,
cigarro.  
Cascas de amendoins quebradas,
vazias.
Flores sem cores,
murchas.
Na noite dos Stones
tudo rolou,
poema refeito,  
agulhas sem música;
discos arranhados,
mudos; 
volúpias sem sexo,
sem carne,
alma.  
   
Amanhã dormirei mais cedo (...)

Poema: Rodrigo Vargas Souza

O assassinato do guarda chuva

A chuva parou,
A sopa está fria,
A garrafa vazia,
A sombra da noite passada invade a sala,
Toda a cena tem um colorido,
Como um filme de Truffaut.
O dia violentou a noite,
E o vento assassinou o guarda chuva
Agora permanece torto,
Morto na porta da casa.
A água está fervendo,
Neste dia pálido,
O silêncio é borrado pelo canto do tucano,
Que precede o grito de espanto da chaleira,
E o vômito do bule,
Negro de café.

Poema: Rodrigo Vargas Souza
Xilo: Oswaldo Goeldi 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Pajador libertário


Como pajador libertário
Escrevo sobre o meu cotidiano
Em prosa
Poesia de não ficção
Na contramão da historia
Saboto em versos a corrupção
Desnudo a miséria de uma nação

Caso o meu verso
Não cause o inverso da situação
Não me preocupo!
Pois os sonhos de liberdade
Brotam dos campos férteis da imaginação

Viva a revolução!

Para : Simões Lopes Neto, Caetano Braun, Noel Guarany
Poema: Rodrigo Vargas Souza

Imagem: Os mineiros de Butiá de Danúbio Gonçalves

Bolsas Victor Hugo


Uma vitrine de bolsas Victor Hugo,
O mesmo nome do escritor de Os Miseráveis.
Como miseráveis maquiadas compram maquiadas bolsas miseráveis,
Miseráveis de idéias,
Com os bolsos cheios de papéis,
Seios e bundas siliconadas
Bonitas como as esculturas de mármore,
Mas mortas como as lápides de mesmo material.
Vida miserável de consumo, idéias, tesão e luzes artificiais (...)

Poema: Rodrigo Vargas Souza
Fotografia: S.Salgado  

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Excremento em papel

Sou um homem comum,
Primitivo,
Feito de palavras,
Contra os yuppies,
Escrevendo em garranchos meus sentimentos.
Tenho desejo,
Carne,
Matéria.
Meu ateísmo é feio e sujo,
Não sou sexista,
Fascista,
Apenas me chame de pecador,
Ou como queira teu conformismo.
Não tenho muito a deixar
A não ser um pouco de mim
Em vaginas, 
Em papel higiênico,
Palavras dissolvidas no ar.
Sou feito de vida,
Vivida,
Bebida,
Música,
Alguns livros lidos sem vírgulas.
Sou um homem,
Sem métrica,
De matéria bruta que se apodrecerá um dia,
Morrerei de raiva como um cachorro vagabundo,
Uivando liberdade,
Como um louco na mais pura lucidez
Enquanto vivo,
Excretarei porra,
Merda,
Vômito.
Vandalizarei a hipocrisia,
Escrevendo poesia.


Poema: Rodrigo Vargas Souza
Imagens: Banksi